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Senhor Cardeal,

Amados Arcebispos e Bispos do Brasil,

Saúdo calorosamente a todos vós, por ocasião da vossa visita ad Limina a Roma, aonde viestes reforçar os vossos vínculos de comunhão fraterna com o Sucessor de Pedro e por ele serdes animados na condução do rebanho de Cristo. Agradeço as amáveis palavras que Dom Ceslau Stanula, Bispo de Itabuna, dirigiu-me em vosso nome, e vos asseguro as minhas orações pelas vossas intenções e pelo amado povo nordestino, do vosso regional Nordeste 3.

Há mais de cinco séculos, justamente na vossa região, se celebrava a primeira Missa no Brasil, tornando realmente presente o Corpo e o Sangue de Cristo para a santificação dos homens e das mulheres desta bendita nação que nasceu sob os auspícios da Santa Cruz. Era a primeira vez que o Evangelho de Cristo vinha a ser proclamado a este povo, iluminando a sua vida diária. Esta ação evangelizadora da Igreja Católica foi e continua sendo fundamental na constituição da identidade do povo brasileiro caracterizada pela convivência harmônica entre pessoas vindas de diferentes regiões e culturas. Porém, ainda que os valores da fé católica tenham moldado o coração e o espírito brasileiros, hoje se observa uma crescente influência de novos elementos na sociedade, que há algumas décadas eram-lhe praticamente alheios. Isso provoca um consistente abandono de muitos católicos da vida eclesial ou mesmo da Igreja, enquanto no panorama religioso do Brasil, se assiste à rápida expansão de comunidades evangélicas e neo-pentecostais.

Em certo sentido, as razões que estão na raiz do êxito destes grupos são um sinal da difundida sede de Deus entre o vosso povo. É também um indício de uma evangelização, a nível pessoal, às vezes superficial; de fato, os batizados não suficientemente evangelizados são facilmente influenciáveis, pois possuem uma fé fragilizada e muitas vezes baseada num devocionismo ingênuo, embora, como disse, conservem uma religiosidade inata. Diante deste quadro emerge, por um lado, a clara necessidade que a Igreja católica no Brasil se empenhe numa nova evangelização que não poupe esforços na busca de católicos afastados bem como daquelas pessoas que pouco ou nada conhecem sobre a mensagem evangélica, conduzindo-os a um encontro pessoal com Jesus Cristo, vivo e operante na sua Igreja. Por outro lado, com o crescimento de novos grupos que se dizem seguidores de Cristo, ainda que divididos em diversas comunidades e confissões, faz-se mais imperioso, da parte dos pastores católicos, o compromisso de estabelecer pontes de contato através de um sadio diálogo ecumênico na verdade.

Tal esforço é necessário, antes de qualquer coisa, porque a divisão entre os cristãos está em contraste com a vontade do Senhor de que «todos sejam um» (Jo 17,21). Além disso, a falta de unidade é causa de escândalo que acaba por minar a credibilidade da mensagem cristã proclamada na sociedade. E hoje, a sua proclamação é talvez ainda mais necessária do que há alguns anos atrás, pois, como bem demonstram os vossos relatórios, mesmo nas pequenas cidades do interior do Brasil, observa-se uma crescente influência negativa do relativismo intelectual e moral na vida das pessoas.

Não são poucos os obstáculos que a busca da unidade dos cristãos tem por diante. Primeiramente, deve-se rejeitar uma visão errônea do ecumenismo, que induz a um certo indiferentismo doutrinal que procura nivelar, num irenismo acrítico, todas as “opiniões” numa espécie de relativismo eclesiológico. Paralelamente a isto está o desafio da multiplicação incessante de novos grupos cristãos, alguns deles fazendo uso de um proselitismo agressivo, o que mostra como a paisagem do ecumenismo seja ainda muito diferenciada e confusa. Em tal contexto – como afirmei em 2007, na Catedral da Sé em São Paulo, no inesquecível encontro que tive convosco, bispos brasileiros – «é indispensável uma boa formação histórica e doutrinal, que habilite ao necessário discernimento e ajude a entender a identidade específica de cada uma das comunidades, os elementos que dividem e aqueles que ajudam no caminho da construção da unidade. O grande campo comum de colaboração devia ser a defesa dos fundamentais valores morais, transmitidos pela tradição bíblica, contra a sua destruição numa cultura relativista e consumista; mais ainda, a fé em Deus criador e em Jesus Cristo, seu Filho encarnado» (n. 6). Por essa razão, vos incentivo a prosseguir dando passos positivos nesta direção, como é o caso do diálogo com as igrejas e comunidades eclesiais pertencentes ao Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, que com iniciativas como a Campanha da Fraternidade Ecumênica ajudam a promover os valores do Evangelho na sociedade brasileira.

Prezados irmãos, o diálogo entre os cristãos é um imperativo do tempo presente e uma opção irreversível da Igreja. Entretanto, como lembra o Concílio Vaticano II, o coração de todos os esforços em prol da unidade há de ser a oração, a conversão e a santificação da vida (cf. Unitatis redintegratio, 8). É o Senhor quem doa a unidade, esta não é uma criação dos homens; aos pastores lhes corresponde a obediência à vontade do Senhor, promovendo iniciativas concretas, livres de qualquer reducionismo conformista, mas realizadas com sinceridade e realismo, com paciência e perseverança que brotam da fé na ação providencial do Espírito Santo.

Queridos e venerados irmãos, procurei evidenciar brevemente neste nosso encontro alguns aspectos do grande desafio do ecumenismo confiado à vossa solicitude apostólica. Ao despedir-me de vós, reafirmo uma vez mais a minha estima e a certeza das minhas orações por todos vós e pelas vossas dioceses. De modo particular, quero aqui renovar a expressão da minha solidariedade paterna aos fiéis da diocese de Barreiras, recentemente privados da guia do seu primeiro e zeloso pastor Dom Ricardo José Weberberger, que partiu para a casa do Pai, meta dos passos de todos nós. Que repouse em paz! Invocando a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, concedo a cada um de vós, aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas, aos seminaristas, aos catequistas e a todo povo a vós confiado uma afetuosa Bênção Apostólica.

Faleceu, nesta sexta-feira 18 de junho, um dos maiores nomes da literatura moderna e, indubitavelmente, o maior e único em língua portuguesa a receber o Nobel de literatura (1998): José Saramago. Ele representa uma das mentes mais brilhantes e seu nome ficou ainda mais popularmente conhecido no Brasil, justamente depois de receber o Nobel de literatura e mais ainda com a adaptação ao cinema (dirigido por Fernando Meirelles) de sua famosa obra “Ensaio sobre a cegueira” em 2008.

José Saramago era também comunista e a partir desta adesão conhecido por suas críticas ácidas a fé cristã e a Igreja Católica. Elaborações mais refinadas de suas críticas e posicionamentos podem ser bem reconhecidos nas obras “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991) e também em “Caim” (2009). Até aqui tudo bem. Não é de hoje que as opiniões acerca da Igreja Católica cumpram uma longa trajetória – por vezes cíclica – que vai da mais sublime admiração até aquela mais dura e ríspida avaliação. Ambas, entre outros, tem o mérito de corresponder a um ângulo da verdade bem como são sinais da justa liberdade, pessoal e institucional, de fazer ecoar o próprio pensamento.

Tanto José Saramago como a Igreja e outros homens e mulheres de cultura expressam publicamente suas opiniões por meio de entrevistas, publicação de livros, filmes aliados aos meios disponíveis pelas tecnologias de informação como a internet. Estas opiniões, uma vez colocadas em público, estão disponíveis a serem criticadas, aceitas, compreendidas ou não. E isso é mais um espaço da liberdade, mesmo quando sujeita a certos “lugares comuns”.

Obviamente, esta dinâmica não está passível nem ausente da influencia dos medíocres. Os medíocres nasceram do ventre de mãe ignorância e infelizmente ocupam cadeiras cativas entre os intelectuais, os liberalistas, os comunistas e também entre os católicos. Eles são como pragas e parasitas: se aninham e se alimentam, infelizmente, da virtude dos sábios convertendo o sumo da sabedoria no amargo fel da estupidez.

Um exemplo? Quem escuta as notícias sobre a morte de Saramago e o contraponto imediato (em algumas reportagens) entre suas opiniões e a fé da Igreja pode ser induzido a aceitar e aplaudir o medíocre monólogo de uma modernidade encurralada na unanimidade, tão bem representado na mídia contemporânea. Contudo, os medíocres esquecem que lá no poço da sabedoria e nos modernos areópagos, tanto Saramago como os mais sinceros cristãos estão diante do mesmo dilema: dar razões do que acreditam (…).

Um olhar mais atendo pode, de fato, reconhecer que em certas reportagens emerge uma superficialidade midiática que está virando corriqueira: a sociedade está, imediatamente, dividida no duelo entre os bons e os maus. Todavia, é justamente neste falso duelo (ou duelo dos covardes) que os medíocres se encontram. Aqui os medíocres transvestidos de radicais (cristãos e comunistas) dividem a mesma mesa: a intolerância que ajuda certos setores da imprensa a viver de escândalos, puritanismo, venda de jornais e fartos espaços publicitários.

Graças a Deus a morte de um grande autor não significa o fim das suas inspirações. Graças a Deus seus leitores e críticos podem usufruir da liberdade de respeitá-los e admirá-los sem, obrigatoriamente, abraçar suas opiniões e polêmicas. Que assim seja!

Clique aqui para a Nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organismo da Conferencia Episcopal Portuguesa.

“Dos sacerdotes, os fiéis esperam somente uma coisa: que sejam especialistas na promoção do encontro do homem com Deus. Cristo precisa de sacerdotes que sejam maduros, vigorosos, capazes de cultivar uma verdadeira paternidade espiritual”. Bento XVI

Está acontecendo, na sala Pio XI na Pontifícia Universidade Lateranense em Roma uma exposição intitulada “I sacerdoti e l’immaginario cinematografico” (Os sacerdotes e o imaginário cinematográfico), até o dia 22 de junho. A mostra é dirigida por D. Dario Edoardo Viganò. Na oportunidade da mostra foi escolhido como o melhor interprete de sacerdote nas telonas, o ator italiano Carlo Verdone que já interpretou inúmeras vezes o papel de sacerdote em sua longa carreira artística.

Alguns filmes apresentados na mostra são pouco conhecidos no Brasil, mas de grande sucesso na Itália e na Europa como um todo, a exemplo de Roma città aperta (1945) dirigido por Rossellini e o muito famoso don Camillo. Sem esquecer a adaptação cinematográfica do famoso romance de Georges Bernanos “Le journal d’un curé de campagne”, dirigida por Robert Bresson e interpretado por Claude Laydu (1951).

Contudo, a imagem cinematográfica referida ao Padre não foi sempre uma imagem levada às telonas em forma meditativa e reflexiva como nestas grandes obras, algumas de grande envergadura literária.

Conflitos de fé podem ser reconhecidos na imagem do Padre Frank Moore (Ed Harris) no filme “O terceiro milagre” (The third miracle, 1999) dirigido por A. Holland. Em luta contra espíritos imundos, o inesquecível Padre Merrin do filme “O Exorcista” (The Exorcist, 1973, ganhador de dois Oscar e quatro Globos de Ouro) interpretado por Max Van Sydon.

Tem ainda os que retratam padres em conflitos, peculiares, de sexualidade como “O Padre” (Priest, 1994) ou ainda, o “O crime do Padre Amaro” (El crime del Padre Amaro, 2002) dirigido por Carlos Carrera. E finalmente, o caricaturado padre bonachão do “Alto da Compadecida” de Ariano Suassuna, interpretado por Rogério Cardoso no papel de Padre João, na adaptação dirigida por Guel Arraes no ano 2000.

Mais recentemente, o filme Dúvida (Doubt, 2008) no qual Philip Hoffman interpreta o excelente padre Flynn, trás uma imagem, não obstante o polêmico tema abordado, menos caricaturada e talvez abra espaços mais amplos na moderna imagem cinematográfica acerca dos padres.

Os tempos atuais oferecem bons temas que vão da pedofilia, à moderna luta social e ao martírio em crescimento, particularmente, fora do Ocidente.

Estas imagens cinematográficas carregam consigo os dramas e conflitos que acompanham a imagem do homem moderno. Esta crise perpassa, sobretudo, a questão da identidade: das demandas mais simples àquelas mais complexas como a sexualidade, por exemplo. Não está descartada uma certa ordem ideológica que, aproveitando-se da potente máquina do entretenimento, tenta construir à força (neste caso mais mercadológica que reflexiva) não só sua idéia de igreja como também aquela do sacerdote ideal para os tempos modernos: conturbado, duvidoso, alheio a norma moral, em crise institucional e conflitivo como consigo e com o seu tempo.

A melhor imagem para o Vaticano? Aquela da Presbyterorum ordinis, o Decreto conciliar especifico sobre o ministério sacerdotal. Entre outras ricas linhas de reflexão, podemos ter em conta uma breve citação no n. 15:

Entre as virtudes que, sobretudo se requerem no ministério dos presbíteros, deve nomear-se aquela disposição de espírito pela qual estão sempre prontos não a procurar a própria vontade, mas a vontade d’Aquele que os enviou. A obra divina, para que o Espírito Santo os assumiu, transcende todas as forças e a sabedoria humana, pois «Deus escolheu o que há de fraco no mundo, para confundir os fortes» (l Cor. 1,27). Consciente, portanto, da própria fraqueza, o verdadeiro ministro de Cristo trabalha na humildade, examinando o que é agradável a Deus, e, como que assumido pelo Espírito, é conduzido pela vontade d’Aquele que quer que todos os homens se salvem”.

Indubitavelmente, o imaginário cinematográfico sobre os Padres continuará polêmico. Espera-se, contudo, que os sacerdotes possam delinear a própria imagem, naquilo que lhes compete, naquela de Cristo: “eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Que assim seja!

Maiores informações sobre a Mostra: Pontificia Università Lateranense

Depois de todos os casos de violência, não perder a paciência, não perder o valor, não perder a longanimidade de voltar a começar; criar estas disposições do coração para começar sempre de novo, na certeza de que podemos ir adiante, que podemos chegar à paz, que a violência não é a solução, mas sim a paciência do bem. Criar esta disposição me parece o principal trabalho que o Vaticano, seus órgãos e o Papa podem fazer. Bento XVI, visita apostólica à Ilha de Chipre.

O Papa Bento XVI se encontra em viagem apostólica, desta vez à Ilha de Chipre, onde casa mãe dos católicos maronitas. A visita começou no dia 04 e termina hoje, 06 de junho. Formalmente, a ilha de Chipre é um país sobrerano, mas na prática, desde 1974 a causa da invasão turca, é uma soberania forçosamente dividida entre o Chipre grego (cristão) e a porção turca (islã). A capital dos dois lados é a cidade de Nicósia, também esta dividida. Muitos maronitas, em virtude desta invasão, foram obrigados a transferir-se para o sul da ilha abandonando casas e famílias, alimentando ressentimentos e rancores até os dias atuais.

E assim que, mais uma vez, o Papa Bento XVI se vê no meio de sinais fortes e complexos: o assassinato de Dom Padovese; o diálogo com o Islã no atual contexto político da região; as antigas e atuais tensões políticas regionais entre Chipre e a Turquia, o êxodo dos cristãos do Oriente-Médio e também da Turquia, o diálogo ecumênico com os ortodoxos e a entrega do documento de trabalho do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio.

A cada um destes temas, o Papa tem buscado refletir a partir do seu lugar religioso: ele é um homem de fé, um pastor em peregrinação e basta. Não obstante seja consciente das expectativas políticas, devidas e indevidas de suas intervenções, o Papa indica sempre o coração, a consciência e a lei moral natural como lugares privilegiados para alimentar a busca da verdade e da paz para uma justa e pacífica convivência em meio às diferenças. Segundo Bento XVI, Chipre se encontra “na encruzilhada de culturas e religiões, junto com histórias gloriosas e antigas, mas que ainda mantêm um impacto forte e visível na vida de seu país”, e no mais, sua “herança espiritual e cultural” deve contribuir para enriquecer toda a Europa.

Citando filósofos como Platão e Aristóteles e outros pensadores cristãos e mulçumanos o Papa falou para os políticos de Chipre. Da luz do Evangelho e da tribuna da filosofia clássica, Bento XVI exortou aquela envergadura moral apta a conduzir com perseverança, sede da verdade e empenho pelo bem comum o bem de todo corpo social com decisões justas.

Ainda no avião, antes de pousar em Chipre, respondendo as perguntas dos repórteres insiste nesta interpretação dos fatos: “Paz em um sentido muito profundo: não é uma afirmação política a nossa atividade religiosa, mas que a paz é uma palavra do coração da fé está no centro do ensinamento paulino (…). Isto continua sendo um mandato permanente, portanto não venho com uma mensagem política, mas com uma mensagem religiosa, que deveria preparar mais as almas para encontrar a abertura pela paz. Estas não são coisas que vem de hoje para amanhã, mas é muito importante não só dar os passos políticos necessários, mas, sobretudo preparar as almas para serem capazes de dar os passos políticos necessários, criar essa abertura interior para a paz, que, ao final, vem da fé em Deus e da convicção de que todos somos filhos de Deus, irmãos e irmãs entre nós”.

É, portanto, a partir deste olhar de fé que Bento XVI pede aos cristãos para não abandonarem o Oriente – Médio, nem tão pouco Chipre a Turquia. O Papa classifica a presença dos cristãos como fundamental, como um sinal de “esperança” e “expressão eloqüente do evangelho da paz” para e região tão marcada por conflitos e tensões religiosas e políticas, além de dificuldades sociais. O ponto de apoio? A cruz de Cristo: “definitivo triunfo do amor de Deus sobre todos os males do mundo”. Que assim seja!

O Espírito que “sopra onde quer” supera as desconfianças!


Dois eventos interessantes. O primeiro testemunha a força da arrogância humana disfarçada de zelo religioso e o segundo, testemunha a força da paz que lança sementes de paz e de esperança até mesmo na terra de ninguém:

Um tema forte para a população de Chipre é aquele da unificação, desejada na forma binacional com equidade política entre as duas comunidades. E foram, talvez, as diferenças relativas a este desejo que causaram a deserção de cinco, entre dezessete metropolitas ortodoxos convidados a participar do almoço organizado pelo arcebispo Chrysostomos em homenagem a visita de Bento XVI. Segundo indiscrições da imprensa, a desistência foi comandada por Anastasios, metropolita di Limassol, que dias antes definiu o Papa como um “herético” que não deveria por os pés em terra ortodoxa.

Bento XVI se colocou disponível para um encontro com as autoridades islâmicas que, contudo, não se fizeram presente. Mas, o Espírito sopra onde quer. Para se encontrar com Bento XVI veio o ancião líder Sufi, o Xeique Mehmet Nazim Adil Al – Haquani, que ultrapassou a linha verde a Turquia chipiotra do resto do país. Acompanhado de alguns dos seus discípulos o Xeique Mehmed Nazim esperou Bento XVI que estava indo para a Paróquia da Santa Cruz localizada na área neutra controlada pela ONU, também conhecida como terra de ninguém. O Papa parou para saudar o Xeique que lhe disse que o esperava sentado porque já era um velho, ao que Bento XVI retribuiu com um sorriso recordando que também ele é já um velho. O Xeique presenteou o Papa com três presentes: um bastão esculpido, uma tabuleta com palavras de paz em árabe esculpidas na madeira e um rosário mulçumano. O Papa o presenteou com uma medalha do seu pontificado. Os dois de abraçaram e prometeram rezar um pelo outro ao final do encontro. Que assim seja!

Planejamento familiar e aquecimento global

Uma preocupante soma…

…e uma ainda mais preocupante ideologia atrás dos números.

Não é de hoje que o tema do aquecimento global tem gerado uma crescente preocupação em diversos países do mundo. Entre tantas, antigas e novas, teorias uma consciência parece ficar cada vez mais clara: a importância do papel da educação. A educação é um passo primário e fundamental na direção de uma consideração ética que contribua e fortaleça o significado e o melhor uso que possamos fazer dos recursos naturais. A educação e a ética implicam o sujeito na comum responsabilidade pelo planeta terra. Juntas – educação e ética – são importantes na superação do dedo apontador e moralista da responsabilidade “dos outros” privilegiando a reflexão sobre as próprias responsabilidades e atitudes pró-ativas no quesito justamente chamado de “educação ético-ambiental”.

Mais recentemente, esta preocupação educacional e pedagógica tem alçado vôos humanísticos e alguns têm falado de “ecologia humana”. Afirma-se que educação e ética dizem respeito ao viver em comum social e que a o bem da natureza implica conjuntamente o respeito à dignidade da pessoa humana. Nesta perspectiva o bem da natureza e o bem da pessoa humana não estão em competição, mas em profícuo diálogo e o planeta terra pode contar com aqueles que estão em melhor condição de assumir o protagonismo ecológico: os seres humanos.

Todavia, não poucos os que ainda hoje, relutam em associar a presença humana sobre a terra a maciça destruição do planeta. Escondidos atrás de eufemismos e de ambigüidades terminológicas alguns grupos e associações se aproveitam de sérias conquistas sociais como o Planejamento Familiar para propagar o pânico moral acerca do inchaço populacional da terra. Este inchaço justificaria assim um rígido controle de natalidade, particularmente nos países ditos pobres e subdesenvolvidos, que são na verdade (construída pelos autores do pânico do inchaço populacional) , os grandes responsáveis pelo reconhecido inchaço populacional.

No blog de Andrea Vialle (ecotendências) no site do Estadão.com uma postagem informa sobre a mais recente campanha da Optimum Population Trust, uma organização filantrópica britânica, que propõe a compensação de carbono não por meio de atividades de explícito cunho (educacional/panfletário/comunitário) ecológico, mas pelo incentivo ao que consideram de controle da natalidade e educação sexual, como sempre, destinada às populações menos favorecidas.

Contudo, esta lógica post malthusiana não passa de fumaça. Seus sustentadores ignoram o fato que embora os países chamados desenvolvidos padeçam de baixos índices de natalidade são, ao mesmo tempo, responsáveis pelas mais graves agressões contra o meio ambiente. E tudo sem comentar a duvidosa adesão ou aberta resistência dos países industrializados ao protocolo de Kyoto. Basta pensar, por exemplo, na excessiva produção de lixo dos mais variados tipos que circulam o mundo atrás de compradores interessados em subprodutos da elite industrial.

De fato, muitos ecologistas e especialistas denunciam que muitos dos prejuízos sofridos pela natureza estão muito mais relacionados com o modelo de vida baseado no alto consumo do que no número de habitantes sobre a terra. Também, muitas perdas se dão pela parca educação ambiental que gera desperdícios, uso indevido e desordenado dos recursos naturais em tantas partes do mundo. E o que dizer de grandes desastres provocados por empresas das mais variadas atividades industriais? O que falar do descaso dos poderes públicos com a reciclagem do lixo, por exemplo? E podemos ainda constatar a baixa formação e demanda ética acerca do futuro do planeta e da responsabilidade moral com as futuras gerações. E as questões ligadas à falta de saneamento básico, educação fundamental e saúde pública? Não são estes grandes e maiores desafios a serem superados no contexto da preservação do planeta como casa de todos? Ou para a Optimum Population Trust não é claro que a o planeta é casa de todos? Estamos atentos. Que assim seja!

Consulte:

Andrea Vialle (ecotendências)

Protocolo de Kyoto

Optimum Population Trust

“Se queres cultivar a paz, preserve a criação”. Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2010

Uma notícia interessante, para quem gosta de história – tanto civil como eclesiástica – e dela tem a paciente virtude de perscrutar seus meandros. Não se trata, porém, de pura curiosidade. Na verdade, é interessante o atual interesse dos historiadores em entender a história não apenas pelos seus protagonistas ou pelos grandes e relevantes fatos repetidos a mecenas nos livros de história. A história é também construída de particulares de grande relevo, mesmo quando parece desinteressante à massa impressa de livros e de informações desconexas e frias que não induzem a uma leitura pessoal e crítica dos fatos históricos.

Foi publicado hoje, primeiro de junho, no jornal italiano – on line – corriere della sera (link ao final deste post) um artigo assinado por Marco Gasperetti. O artigo apresenta uma pesquisa, tornada um livro do professor Lorenzo Greco, da Universidade de Pisa, Itália. Professor Greco está por publicar um livro sobre Camillo Benso di Cavour, na ocasião dos 150 anos da unificação da Itália (Unità d’Italia). Tudo corriqueiro até vir a tona um humilde frade franciscano de nome Giacomo da Poirino (nome civil Giacomo Marrocco). Frei Poirino foi punido, suspenso a divinis, ameaçado pelo Tribunal da Inquisição e reduzido ao estado laico por ter ministrado a absolvição sacramental ao famoso e polêmico Conde Cavour. Mas, o que tem de anormal neste fato? São tantos os sacerdotes que já confessaram importantes personalidades históricas. É que este simples Frei atendeu um pedido de Cavour de ser assistido sacramentalmente na hora de sua morte. A assim ocorreu e Cavour antes de morrer recebeu a graça sacramental da penitência.  Para quem não se recorda das aulas de história, o conde Camillo Cavour (1810-1861) foi um industrial de sucesso que se tornou um político também de não menos sucesso, chegando a ocupar duas vezes o posto de Primeiro Ministro. Foi um dos principais articuladores da unificação da Itália e por essa razão entrou em conflito direto com a Igreja a causa da sua oposição e invasão dos Estados pontifícios. Era dono de posições firmes e rígidas, não gozava da simpatia nem da Direita nem da Esquerda e teve claras posições anticlericais. Defender a unidade da Itália significava marchar contra as pretensões de Pio IX de manter o Estado Pontifício, à época ameaçado justamente pelas tenções a favor da unificação da península. Mas, isso não é ainda o mais interessante.

O mais impressionante é a firmeza deste humilde frade em permanecer fiel a consciência moral não só individual, mas do próprio ministério sacerdotal. Mesmo diante de pressões políticas, daquelas provindas do ambiente social e eclesial e, sobretudo, de Pio IX em pessoa, ele se mantêm fiel, em consciência, à imitação do Cristo misericordioso. Sua consciência antes mesmo de temer o poder dos homens era fiel temente de Deus e de sua lei de misericórdia e perdão a quem quer que seja. O que podemos pensar? Que se trata de história de um desobediente? De um frade falsamente piedoso? Bem, não conheço a vida do frade e nem tive acesso a obra em questão. Talvez ele seja mesmo um pouco de tudo isso. Contudo, nem a dúvida acerca de sua personalidade afasta a percepção de um importante sinal sociológico e teológico: a medida de Cristo como pilar normativo superior da consciência testemunhada pela caridade sacerdotal. Num tempo onde a consciência do clero está assim desgastada a causa da virulência de uma minoria, recordar uma nobre consciência atenta aos ditames primários de seu serviço ministerial e sabê-la sofredora de punições pela sua fidelidade à misericórdia divina… é um bálsamo. Que assim seja!

Para ler a reportagem em italiano acesse corriere della sera

Uma inteira Arquidiocese em festa

Neste sábado, 22 de maio, foram ordenados 11 novos Padres para a Arquidiocese de são Salvador da Bahia. A celebração eucarística na qual foram ordenados foi presidida pelo Eminentíssimo Cardeal D. Geraldo Majella Agnelo na Igreja da Imaculada Conceição, no largo de Roma. Foram três horas de celebração num templo lotado de fiéis que participaram animadamente com cânticos, aplausos e silêncio à segunda das diversas partes do rito.

Visto de longe, ou seja, do seu mero aspecto organizativo estes 11 novos Padres fazem parte de um caminho formativo que, fosse ou não neste mês de maio, seriam ordenados ainda este ano.

Porém, olhado de um horizonte mais amplo, este dia evoca o cuidado que o Senhor tem por sua vinha que é a Igreja. Mas uma vez, Ele a enche do Espírito Santo como no dia de Pentecostes. Em época tão difícil e na qual a imagem do sacerdote parece tão desgastada, este dia – luminoso já pelo fato de ser Dom – renova a Igreja de esperança e anima o louvor de todos os batizados pelo infinito amor de onde, simultaneamente, brotou a Eucaristia e a força pela qual as portas do inferno não prevalecem sobre a Igreja.

O Papa Bento XVI, com sua costumeira sabedoria, alertou o corpo eclesial que o pecado dos filhos da Igreja é a verdadeira ferida que assombra e traumatiza o rebanho eclesial. A ocasião, portanto, é de santidade. De fato, em toda ordenação sacerdotal, e particularmente nestes tempos rumorosos, a Igreja se põe diante de dois mistérios: a grandeza do dom e a miséria dos que o recebem. Mas, a Igreja também sabe que entre a oferta Redentora de Cristo e nossas misérias não existe equilíbrio porque embora a Redenção abrace o pecador, é infinitamente superior a força do pecado. O amor de Jesus vence as trevas da morte!

Rezemos então por todas as Dioceses no mundo que hoje ordenaram novos padres. Que eles signifiquem novos pastores não só na juventude, mas no apreço, cuidado, carinho e cura pelas vinhas que a Igreja os confiar. Parabéns aos novos Padres. Deus vos abençoe…

Assim seja!

VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL NO 10º ANIVERSÁRIO DA BEATIFICAÇÃO DE JACINTA E FRANCISCO, PASTORINHOS DE FÁTIMA

(11-14 DE MAIO DE 2010)

SANTA MISSA

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Esplanada do Santuário de Fátima Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Queridos peregrinos,

«A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou» (Is 61, 9). Assim começava a primeira leitura desta Eucaristia, cujas palavras encontram uma realização admirável nesta devota assembleia aos pés de Nossa Senhora de Fátima. Irmãs e irmãos muito amados, também eu vim como peregrino a Fátima, a esta «casa» que Maria escolheu para nos falar nos tempos modernos. Vim a Fátima para rejubilar com a presença de Maria e sua materna protecção. Vim a Fátima, porque hoje converge para aqui a Igreja peregrina, querida pelo seu Filho como instrumento de evangelização e sacramento de salvação. Vim a Fátima para rezar, com Maria e tantos peregrinos, pela nossa humanidade acabrunhada por misérias e sofrimentos. Enfim, com os mesmos sentimentos dos Beatos Francisco e Jacinta e da Serva de Deus Lúcia, vim a Fátima para confiar a Nossa Senhora a confissão íntima de que «amo», de que a Igreja, de que os sacerdotes «amam» Jesus e n’Ele desejam manter fixos os olhos ao terminar este Ano Sacerdotal, e para confiar à protecção materna de Maria os sacerdotes, os consagrados e consagradas, os missionários e todos os obreiros do bem que tornam acolhedora e benfazeja a Casa de Deus.

São a linhagem que o Senhor abençoou… Linhagem que o Senhor abençoou és tu, amada diocese de Leiria-Fátima, com o teu Pastor Dom António Marto, a quem agradeço a saudação inicial e todas as atenções com que me cumulou nomeadamente através de seus colaboradores neste santuário. Saúdo o Senhor Presidente da República e demais autoridades ao serviço desta Nação gloriosa. Idealmente abraço todas as dioceses de Portugal, aqui representadas pelos seus Bispos, e confio ao Céu todos os povos e nações da terra. Em Deus, estreito ao coração todos os seus filhos e filhas, especialmente quantos vivem atribulados ou abandonados, no desejo de comunicar-lhes aquela esperança grande que arde no meu coração e que, em Fátima, se faz encontrar mais sensivelmente. A nossa grande esperança lance raízes na vida de cada um de vós, amados peregrinos aqui presentes, e de quantos estão em comunhão connosco através dos meios de comunicação social.

Sim! O Senhor, a nossa grande esperança, está connosco; no seu amor misericordioso, oferece um futuro ao seu povo: um futuro de comunhão consigo. Tendo experimentado a misericórdia e consolação de Deus que não o abandonara no fatigante caminho do regresso do exílio de Babilónia, o povo de Deus exclama: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus» (Is 61, 10). Filha excelsa deste povo é a Virgem

Mãe de Nazaré, a qual, revestida de graça e docemente surpreendida com a gestação de Deus que se estava operando no seu seio, faz igualmente sua esta alegria e esta esperança no cântico do Magnificat: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador». Entretanto não se vê como privilegiada no meio de um povo estéril, antes profetiza-lhe as doces alegrias duma prodigiosa maternidade de Deus, porque «a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem» (Lc 1, 47.50).

Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana. Uma experiência de graça que os tornou enamorados de Deus em Jesus, a ponto da Jacinta exclamar: «Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo. Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não me queimo». E o Francisco dizia: «Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 40 e 127).

Irmãos, ao ouvir estes inocentes e profundos desabafos místicos dos Pastorinhos, poderia alguém olhar para eles com um pouco de inveja por terem visto ou com a desiludida resignação de quem não teve essa sorte mas insiste em ver. A tais pessoas, o Papa diz como Jesus: «Não andareis vós enganadas, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?» (Mc 12, 24). As Escrituras convidam-nos a crer: «Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29), mas Deus – mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio (cf. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11) – tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não-sensível, o não-visível aos sentidos. Para isso exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma (cf. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000). Sim! Deus pode alcançar-nos, oferecendo-Se à nossa visão interior.

Mais ainda, aquela Luz no íntimo dos Pastorinhos, que provém do futuro de Deus, é a mesma que se manifestou na plenitude dos tempos e veio para todos: o Filho de Deus feito homem. Que Ele tem poder para incendiar os corações mais frios e tristes, vemo-lo nos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 32). Por isso a nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. E o entusiasmo que a sua sabedoria e poder salvífico suscitavam nas pessoas de então era tal que uma mulher do meio da multidão – como ouvimos no Evangelho – exclama: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Contudo Jesus observou: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27. 28). Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração? Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo.

«A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou» (Is 61, 9) com uma esperança inabalável e que frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros; antes – como ouvimos na segunda leitura – «tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 7). Exemplo e estímulo são os Pastorinhos, que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus. Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor. De modo particular, a beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.

Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).

Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima

Contigo caminhamos na esperança!

Bento XVI em Portugal

Amanhã é o grande dia para os católicos portugueses, mas também para os devotos de Nossa Senhora de Fátima em todo o mundo. No ano da comemoração dos 10 anos da beatificação dos pastorinhos, Jacinta e Francisco, o Papa Bento XVI faz sua viagem apostólica a Portugal, mais especificamente, ao Santuário de Fátima. Santuário famoso e meta de milhões de peregrinos de todos os quatro cantos da terra. A expectativa marca os sentimentos dos peregrinos e do Reitor do Santuário, o Padre Virgílio que na última edição do cotidiano “Voz de Fátima” num artigo intitulado “Seja bem-vindo Santo Padre” diz:

“Estamos, agora, ansiosos pela sua visita, pela qual a nossa fé será fortalecida e a nossa comunhão com a Igreja de Cristo será aprofundada. (…) Santo Padre, pode estar certo de que aquilo que mais alegra o povo português nesta sua visita é o facto de se tornar, como ele, peregrino de Nossa Senhora. Ela é a nossa padroeira, a nossa rainha, a glória da nossa terra”.

Antes mesmo do Padre Virgílio, o Patriarca de Lisboa já alimentava no seu coração o dia que agora de realiza. Na Solenidade de Nossa Senhora de Fátima, presidindo a Missa no Santuário no dia 13 de maio de 2005, diante da multidão de fiéis fez a seguinte declaração:

“Hoje estou aqui a cumprir uma promessa que fiz a Sua Santidade Bento XVI. Quando, no final do Conclave, chegou a minha vez de o cumprimentar e jurar-lhe comunhão e obediência, o Santo Padre agarrou-me as mãos e falou-me de Fátima. E eu prometi-lhe, e ele agradeceu-me, que no próximo dia 13 de Maio viria pôr aos pés de Nossa Senhora o seu Pontificado. Aqui estou a cumprir a promessa, não apenas por devoção, mas com grande realismo pastoral, da visão da missão da Igreja no mundo contemporâneo, e peço-vos a todos vós que me acompanheis com fé e amor, neste consagrar a Maria o Pontificado que agora começa. Claro que o nosso coração exultará de alegria, se um dia pudermos renovar esta consagração com a presença física do Santo Padre neste Santuário. Mas não faremos depender disso a nossa oração contínua e a nossa comunhão com ele”.

A viajem apostólica começa dia 11 e termina dia 14 de maio. Seu ponto alto é a Solene Celebração Eucarística presidida por Bento XVI na esplanada do Santuário. Para quem não lembra foi, à época, o cardeal Ratzinger a fazer o excelente comentário teológico acerca do clamoroso “terceiro segredo” de Fátima objeto, ainda hoje, de não poucas especulações, dúvidas e um certo esoterismo.

Links

Site oficial da Visita Apostólica de Bento XVI a Portugal: Conferência Episcopal Portuguesa

Bento XVI em Fátima: site oficial do Santuário de Fátima

Visita Apostólica: site do Vaticano

Comentário Teológico: site do Vaticano

“Por amor da verdade…”

Publico uma ‘nossa’ versão em português do excelente pronunciamento de Padre Federico Lombardi, o jesuíta a frente da Sala de imprensa do Vaticano.

“Por amor da verdade…”

O editorial lido dia 09 de abril na Rádio Vaticana pelo porta-voz do Papa. Trata-se do mais importante pronunciamento da Igreja sobre a pedofilia, depois da Carta do Papa aos irlandeses.

O debate sobre os abusos sexuais, e não apenas do clero, procede entre notícias e comentários de vários teores. Como navegar nestas águas agitadas conservando uma rota segura, respondendo ao evangélico Duc in altum, ide mais distantes?

Antes de tudo continuando a buscar a verdade e a paz para os ofendidos. Uma das coisas que mais marcam é que venham ainda hoje à luz tantas feridas interiores que dizem respeito há muitos anos atrás, às vezes de diversos decênios, mas evidentemente ainda abertas. Muitas vítimas não buscam recompensas econômicas, mas ajuda interior, um juízo da sua dolorosa vicissitude pessoal. Existem aspectos que precisam ainda ser verdadeiramente entendidos.

Provavelmente devemos fazer uma experiência mais profunda dos eventos que tão negativamente incidiram na vida das pessoas, da Igreja e da sociedade. Exemplos são, a nível coletivo, o ódio e a violência dos conflitos entre os povos, que vemos tão difíceis de serem superados em uma verdadeira reconciliação. Os abusos ferem, pessoalmente, em níveis profundos.

Por isso, fizeram bem aqueles episcopados que retomaram com coragem o desenvolvimento das vias e dos lugares de livre expressão das vítimas e da sua escuta, sem dar por resolvido, que o problema tenha já estado afrontado e superado com os centros de escuta já instituídos em tempos passados, como também aqueles episcopados ou bispos que, individualmente, com paterno trato dão atenção espiritual, litúrgico e humano às vítimas.

Parece confirmado que o número das novas denúncias em relação aos abusos, como ocorre nos Estados Unidos, diminuem, mas o caminho do profundo ressarcimento para muitos, começa só agora e, para outros, deve ainda iniciar. No contexto da atenção às vítimas, o Papa escreveu acerca de sua disposição a novos encontros com esses, envolvendo-se no caminho de toda comunidade eclesial. Mas, é um caminho que para alcançar efeitos profundos deve, ainda mais, desenvolver-se no respeito às pessoas e na busca da paz.

Junto à atenção às vítimas, necessita-se, ainda, continuar a atuar com decisão e veracidade os procedimentos corretos do juízo canônico dos culpados e da colaboração com as autoridades civis por quanto diz respeito as suas competências jurídicas e penais, tendo em conta as especificidades das normativas dos diferentes países. Só assim se pode pensar de reconstruir um clima de justiça e de plena fidelidade na instituição eclesial.

Deu-se o caso que diversos responsáveis de comunidades ou instituições, por inexperiência ou despreparo, não tenham claro e presente aqueles critérios que podem ajudá-los a intervir com determinação, mesmo quando, muito difícil e doloroso, possa ser para os mesmos. Mas, enquanto a lei civil intervém com normas gerais, aquela canônica deve ter em conta a particular gravidade moral das prevaricações da fidelidade colocada nas pessoas com responsabilidade das comunidades eclesiais e das flagrantes contradições com a conduta que deveria testemunhar. Neste senso, a transparência e o rigor se impõem como exigência urgente de um testemunho de governo sábio e justo na Igreja.

Em prospectiva, a formação e a seleção dos candidatos ao sacerdócio, e mais geralmente do pessoal das instituições educativas e pastorais, são a premissa para uma eficaz prevenção de possíveis abusos. Alcançar uma sã maturidade da personalidade, também do ponto de vista da sexualidade, é sempre um desafio difícil; mas hoje é ainda pior, ainda que os melhores conhecimentos psicológicos e médicos venham em grande auxílio à formação espiritual e moral.

Alguns observaram que a maior freqüência dos abusos se é verificada no período mais intenso da “revolução sexual” dos últimos decênios. Na formação, necessita-se fazer as contas com este contexto e com aquele mais geral da secularização. Em fundo se trata de redescobrir e reafirmar o senso e importância do significado da sexualidade, da castidade e das relações afetivas no mundo de hoje em forma muito concreta e não apenas verbal e abstrata. Qual fonte de desordem e sofrimento pode ser a sua violação ou subavaliação! Como observa o Papa escrevendo aos irlandeses, uma vida cristã e sacerdotal pode responder hoje as exigências da sua vocação, apenas, alimentando-se verdadeiramente das fontes da fé e da amizade com Cristo.

Quem ama a verdade e a objetiva avaliação dos problemas, saberá buscar e encontrar as informações para uma compreensão mais complexa do problema da pedofilia e dos abusos de menores no nosso tempo e nos vários países, compreendendo-lhe a extensão e a perversidade. Poderá assim, entender melhor em que medida a Igreja Católica partilha problemas não só seus, em que medida estes apresentam para essa uma gravidade particular e requer intervenções específicas, e enfim , em que medida a experiência da Igreja, vem fazendo neste campo possa tornar-se útil também a outras instituições e para a inteira sociedade.

Sobre este aspecto nos parece uma verdade que a imprensa não tenha ainda trabalhado suficientemente, sobretudo nos países onde a presença da Igreja tem maior relevância e sobre os quais, portanto, se apontam mais facilmente os estardalhaços da crítica. Mas, documentos como o relatório USA sobre maltrato às crianças, mereceriam de serem mais bem conhecidos para entender quais são os campos de urgente intervenção social e as proporções dos problemas. Apenas no ano de 2008 nos EUA foram identificados mais que 62.000 atos de abusos sobre menores, destes o grupo de sacerdotes católicos é considerado tão ínfimo que não foi nem mesmo tomado em consideração como tal.

O empenho e a proteção dos menores e dos jovens, portanto, é um campo de trabalho imenso e inexaurível, que vai bem além do problema que diz respeito a alguns membros do clero. Aqueles que se dedicam com sensibilidade, generosidade e atenção suas forças merecem gratidão, respeito e encorajamento da parte de todos e em particular das autoridades eclesiais e civis. A contribuição destes é essencial para a serenidade e a credibilidade do trabalho educativo e de formação da juventude na Igreja e fora dessa. Justamente o Papa teve por eles palavras de alto apreço na carta para a Irlanda, mas pensando naturalmente em um horizonte assai mais largo.

Enfim, o Papa Bento XVI, guia coerente sobre o caminho do rigor e da veracidade, merece todo o respeito e sustento que lhe chega de diversas partes da Igreja. Ele é um pastor a altura para afrontar com alta retidão e segurança este tempo difícil no qual não faltam críticas e insinuações infundadas.

Sem preconceitos seja afirmado que ele é um Papa que falou muito da verdade de Deus e do respeito da verdade, tornando-se, destes, uma testemunha credível. Acompanhamo-lo e aprendemos dele a constância necessária para crescer na verdade, na transparência, continuando a manter amplo horizonte sobre os graves problemas do mundo, respondendo com paciência ao estardalhaço de revelações parciais ou presumíveis que buscam denegrir a credibilidade sua ou de outras instituições e pessoas da Igreja.

Deste paciente e decido amor pela verdade temos necessidade na Igreja, na sociedade na qual vivemos, no comunicar e no escrever, se queremos servir e não confundir os nossos contemporâneos.

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