Uma notícia interessante, para quem gosta de história – tanto civil como eclesiástica – e dela tem a paciente virtude de perscrutar seus meandros. Não se trata, porém, de pura curiosidade. Na verdade, é interessante o atual interesse dos historiadores em entender a história não apenas pelos seus protagonistas ou pelos grandes e relevantes fatos repetidos a mecenas nos livros de história. A história é também construída de particulares de grande relevo, mesmo quando parece desinteressante à massa impressa de livros e de informações desconexas e frias que não induzem a uma leitura pessoal e crítica dos fatos históricos.
Foi publicado hoje, primeiro de junho, no jornal italiano – on line – corriere della sera (link ao final deste post) um artigo assinado por Marco Gasperetti. O artigo apresenta uma pesquisa, tornada um livro do professor Lorenzo Greco, da Universidade de Pisa, Itália. Professor Greco está por publicar um livro sobre Camillo Benso di Cavour, na ocasião dos 150 anos da unificação da Itália (Unità d’Italia). Tudo corriqueiro até vir a tona um humilde frade franciscano de nome Giacomo da Poirino (nome civil Giacomo Marrocco). Frei Poirino foi punido, suspenso a divinis, ameaçado pelo Tribunal da Inquisição e reduzido ao estado laico por ter ministrado a absolvição sacramental ao famoso e polêmico Conde Cavour. Mas, o que tem de anormal neste fato? São tantos os sacerdotes que já confessaram importantes personalidades históricas. É que este simples Frei atendeu um pedido de Cavour de ser assistido sacramentalmente na hora de sua morte. A assim ocorreu e Cavour antes de morrer recebeu a graça sacramental da penitência. Para quem não se recorda das aulas de história, o conde Camillo Cavour (1810-1861) foi um industrial de sucesso que se tornou um político também de não menos sucesso, chegando a ocupar duas vezes o posto de Primeiro Ministro. Foi um dos principais articuladores da unificação da Itália e por essa razão entrou em conflito direto com a Igreja a causa da sua oposição e invasão dos Estados pontifícios. Era dono de posições firmes e rígidas, não gozava da simpatia nem da Direita nem da Esquerda e teve claras posições anticlericais. Defender a unidade da Itália significava marchar contra as pretensões de Pio IX de manter o Estado Pontifício, à época ameaçado justamente pelas tenções a favor da unificação da península. Mas, isso não é ainda o mais interessante.
O mais impressionante é a firmeza deste humilde frade em permanecer fiel a consciência moral não só individual, mas do próprio ministério sacerdotal. Mesmo diante de pressões políticas, daquelas provindas do ambiente social e eclesial e, sobretudo, de Pio IX em pessoa, ele se mantêm fiel, em consciência, à imitação do Cristo misericordioso. Sua consciência antes mesmo de temer o poder dos homens era fiel temente de Deus e de sua lei de misericórdia e perdão a quem quer que seja. O que podemos pensar? Que se trata de história de um desobediente? De um frade falsamente piedoso? Bem, não conheço a vida do frade e nem tive acesso a obra em questão. Talvez ele seja mesmo um pouco de tudo isso. Contudo, nem a dúvida acerca de sua personalidade afasta a percepção de um importante sinal sociológico e teológico: a medida de Cristo como pilar normativo superior da consciência testemunhada pela caridade sacerdotal. Num tempo onde a consciência do clero está assim desgastada a causa da virulência de uma minoria, recordar uma nobre consciência atenta aos ditames primários de seu serviço ministerial e sabê-la sofredora de punições pela sua fidelidade à misericórdia divina… é um bálsamo. Que assim seja!
Para ler a reportagem em italiano acesse corriere della sera