“Depois de todos os casos de violência, não perder a paciência, não perder o valor, não perder a longanimidade de voltar a começar; criar estas disposições do coração para começar sempre de novo, na certeza de que podemos ir adiante, que podemos chegar à paz, que a violência não é a solução, mas sim a paciência do bem. Criar esta disposição me parece o principal trabalho que o Vaticano, seus órgãos e o Papa podem fazer”. Bento XVI, visita apostólica à Ilha de Chipre.
O Papa Bento XVI se encontra em viagem apostólica, desta vez à Ilha de Chipre, onde casa mãe dos católicos maronitas. A visita começou no dia 04 e termina hoje, 06 de junho. Formalmente, a ilha de Chipre é um país sobrerano, mas na prática, desde 1974 a causa da invasão turca, é uma soberania forçosamente dividida entre o Chipre grego (cristão) e a porção turca (islã). A capital dos dois lados é a cidade de Nicósia, também esta dividida. Muitos maronitas, em virtude desta invasão, foram obrigados a transferir-se para o sul da ilha abandonando casas e famílias, alimentando ressentimentos e rancores até os dias atuais.
E assim que, mais uma vez, o Papa Bento XVI se vê no meio de sinais fortes e complexos: o assassinato de Dom Padovese; o diálogo com o Islã no atual contexto político da região; as antigas e atuais tensões políticas regionais entre Chipre e a Turquia, o êxodo dos cristãos do Oriente-Médio e também da Turquia, o diálogo ecumênico com os ortodoxos e a entrega do documento de trabalho do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio.
A cada um destes temas, o Papa tem buscado refletir a partir do seu lugar religioso: ele é um homem de fé, um pastor em peregrinação e basta. Não obstante seja consciente das expectativas políticas, devidas e indevidas de suas intervenções, o Papa indica sempre o coração, a consciência e a lei moral natural como lugares privilegiados para alimentar a busca da verdade e da paz para uma justa e pacífica convivência em meio às diferenças. Segundo Bento XVI, Chipre se encontra “na encruzilhada de culturas e religiões, junto com histórias gloriosas e antigas, mas que ainda mantêm um impacto forte e visível na vida de seu país”, e no mais, sua “herança espiritual e cultural” deve contribuir para enriquecer toda a Europa.
Citando filósofos como Platão e Aristóteles e outros pensadores cristãos e mulçumanos o Papa falou para os políticos de Chipre. Da luz do Evangelho e da tribuna da filosofia clássica, Bento XVI exortou aquela envergadura moral apta a conduzir com perseverança, sede da verdade e empenho pelo bem comum o bem de todo corpo social com decisões justas.
Ainda no avião, antes de pousar em Chipre, respondendo as perguntas dos repórteres insiste nesta interpretação dos fatos: “Paz em um sentido muito profundo: não é uma afirmação política a nossa atividade religiosa, mas que a paz é uma palavra do coração da fé está no centro do ensinamento paulino (…). Isto continua sendo um mandato permanente, portanto não venho com uma mensagem política, mas com uma mensagem religiosa, que deveria preparar mais as almas para encontrar a abertura pela paz. Estas não são coisas que vem de hoje para amanhã, mas é muito importante não só dar os passos políticos necessários, mas, sobretudo preparar as almas para serem capazes de dar os passos políticos necessários, criar essa abertura interior para a paz, que, ao final, vem da fé em Deus e da convicção de que todos somos filhos de Deus, irmãos e irmãs entre nós”.
É, portanto, a partir deste olhar de fé que Bento XVI pede aos cristãos para não abandonarem o Oriente – Médio, nem tão pouco Chipre a Turquia. O Papa classifica a presença dos cristãos como fundamental, como um sinal de “esperança” e “expressão eloqüente do evangelho da paz” para e região tão marcada por conflitos e tensões religiosas e políticas, além de dificuldades sociais. O ponto de apoio? A cruz de Cristo: “definitivo triunfo do amor de Deus sobre todos os males do mundo”. Que assim seja!
O Espírito que “sopra onde quer” supera as desconfianças!
Dois eventos interessantes. O primeiro testemunha a força da arrogância humana disfarçada de zelo religioso e o segundo, testemunha a força da paz que lança sementes de paz e de esperança até mesmo na terra de ninguém:
Um tema forte para a população de Chipre é aquele da unificação, desejada na forma binacional com equidade política entre as duas comunidades. E foram, talvez, as diferenças relativas a este desejo que causaram a deserção de cinco, entre dezessete metropolitas ortodoxos convidados a participar do almoço organizado pelo arcebispo Chrysostomos em homenagem a visita de Bento XVI. Segundo indiscrições da imprensa, a desistência foi comandada por Anastasios, metropolita di Limassol, que dias antes definiu o Papa como um “herético” que não deveria por os pés em terra ortodoxa.
Bento XVI se colocou disponível para um encontro com as autoridades islâmicas que, contudo, não se fizeram presente. Mas, o Espírito sopra onde quer. Para se encontrar com Bento XVI veio o ancião líder Sufi, o Xeique Mehmet Nazim Adil Al – Haquani, que ultrapassou a linha verde a Turquia chipiotra do resto do país. Acompanhado de alguns dos seus discípulos o Xeique Mehmed Nazim esperou Bento XVI que estava indo para a Paróquia da Santa Cruz localizada na área neutra controlada pela ONU, também conhecida como terra de ninguém. O Papa parou para saudar o Xeique que lhe disse que o esperava sentado porque já era um velho, ao que Bento XVI retribuiu com um sorriso recordando que também ele é já um velho. O Xeique presenteou o Papa com três presentes: um bastão esculpido, uma tabuleta com palavras de paz em árabe esculpidas na madeira e um rosário mulçumano. O Papa o presenteou com uma medalha do seu pontificado. Os dois de abraçaram e prometeram rezar um pelo outro ao final do encontro. Que assim seja!
