Faleceu, nesta sexta-feira 18 de junho, um dos maiores nomes da literatura moderna e, indubitavelmente, o maior e único em língua portuguesa a receber o Nobel de literatura (1998): José Saramago. Ele representa uma das mentes mais brilhantes e seu nome ficou ainda mais popularmente conhecido no Brasil, justamente depois de receber o Nobel de literatura e mais ainda com a adaptação ao cinema (dirigido por Fernando Meirelles) de sua famosa obra “Ensaio sobre a cegueira” em 2008.
José Saramago era também comunista e a partir desta adesão conhecido por suas críticas ácidas a fé cristã e a Igreja Católica. Elaborações mais refinadas de suas críticas e posicionamentos podem ser bem reconhecidos nas obras “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991) e também em “Caim” (2009). Até aqui tudo bem. Não é de hoje que as opiniões acerca da Igreja Católica cumpram uma longa trajetória – por vezes cíclica – que vai da mais sublime admiração até aquela mais dura e ríspida avaliação. Ambas, entre outros, tem o mérito de corresponder a um ângulo da verdade bem como são sinais da justa liberdade, pessoal e institucional, de fazer ecoar o próprio pensamento.
Tanto José Saramago como a Igreja e outros homens e mulheres de cultura expressam publicamente suas opiniões por meio de entrevistas, publicação de livros, filmes aliados aos meios disponíveis pelas tecnologias de informação como a internet. Estas opiniões, uma vez colocadas em público, estão disponíveis a serem criticadas, aceitas, compreendidas ou não. E isso é mais um espaço da liberdade, mesmo quando sujeita a certos “lugares comuns”.
Obviamente, esta dinâmica não está passível nem ausente da influencia dos medíocres. Os medíocres nasceram do ventre de mãe ignorância e infelizmente ocupam cadeiras cativas entre os intelectuais, os liberalistas, os comunistas e também entre os católicos. Eles são como pragas e parasitas: se aninham e se alimentam, infelizmente, da virtude dos sábios convertendo o sumo da sabedoria no amargo fel da estupidez.
Um exemplo? Quem escuta as notícias sobre a morte de Saramago e o contraponto imediato (em algumas reportagens) entre suas opiniões e a fé da Igreja pode ser induzido a aceitar e aplaudir o medíocre monólogo de uma modernidade encurralada na unanimidade, tão bem representado na mídia contemporânea. Contudo, os medíocres esquecem que lá no poço da sabedoria e nos modernos areópagos, tanto Saramago como os mais sinceros cristãos estão diante do mesmo dilema: dar razões do que acreditam (…).
Um olhar mais atendo pode, de fato, reconhecer que em certas reportagens emerge uma superficialidade midiática que está virando corriqueira: a sociedade está, imediatamente, dividida no duelo entre os bons e os maus. Todavia, é justamente neste falso duelo (ou duelo dos covardes) que os medíocres se encontram. Aqui os medíocres transvestidos de radicais (cristãos e comunistas) dividem a mesma mesa: a intolerância que ajuda certos setores da imprensa a viver de escândalos, puritanismo, venda de jornais e fartos espaços publicitários.
Graças a Deus a morte de um grande autor não significa o fim das suas inspirações. Graças a Deus seus leitores e críticos podem usufruir da liberdade de respeitá-los e admirá-los sem, obrigatoriamente, abraçar suas opiniões e polêmicas. Que assim seja!
